
Quinta do Duque | Quinta de Alpriate
Quinta do Duque | Quinta de Alpriate
A Quinta do Duque também chamada de Quinta de Alpriate, terá sido construída no século XVIII, tendo sofrido as suas intervenções neoclássicas em 1780 e algumas reconstruções nos inícios do Século XX. Situada em plena várzea agrícola junto ao lugar de Alpriate e à variante de Vialonga, encontra-se hoje em muito mau estado e extremamente pressionada pela pressão urbanística. Na encosta sudeste localiza-se um loteamento urbano que tem vindo a aumentar nas últimas duas décadas. Na sua envolvente norte está prevista a implantação de uma urbanização de moradias que irão ocupar uma grande parte da delimitação original desta propriedade setecentista
Situada num vale ameno e de terras férteis, a quinta implantou-se numa zona de forte cariz rural. As primeiras notícias desta propriedade surgem-nos nas Memórias Paroquiais de 1758.
O padre Manuel Jorge Vieira, cura de Vialonga, menciona-a quando enumera algumas quintas estabelecidas na freguesia (1756 e 1758), numa época em que era frequente as grandes casas senhoriais possuírem quintas nos arredores da capital, para servirem de espaços de lazer e de recreio. Para estas quintas se mudavam em épocas de veraneio, procurando uma mudança climática, quando necessitavam de vigiar a sua produção agrícola, ou quando simplesmente, pretendiam passear.
Esta quinta deve a sua designação ao seu proprietário e fundador, o 1º duque de Lafões e 3º marquês de Arronches, D. Pedro Henrique de Bragança Ligne Sousa Tavares Mascarenhas da Silva (10 de Janeiro de1718 a 26 de Junho de1761) este parente dos soberanos foi um homem culto e iluminado que se distinguiu como músico.
Após o terramoto de 1755 houve necessidade de adaptar muitas das casas de campo em habitações de cariz permanente, enquanto se reparava a danificada habitação principal. Tal terá acontecido com o primeiro duque de Lafões que vê completamente destruída a sua residência no Carmo, obrigando-o a deslocar-se para a (então) periferia da cidade, para a sua Quinta do Grilo, na freguesia do Beato. A mudança implicou a remodelação do palácio do Grilo, e faz da Quinta de Alpriate a segunda casa do nobre: tornando-se casa de campo, de lazer, de recreio e área de produção agrícola.
As duas quintas estavam próximas do rio Tejo, o que permitia um rápido acesso por via fluvial. Foi em Alpriate que D. Pedro passou o seu último ano de vida, após ter sido banido da corte, acabando por ser aqui que morreria, ainda solteiro e com 43 anos, em 26 de Junho de1761, tendo sido sepultado com todas as honras inerentes à sua alta posição social e política, no convento de Santa Catarina de Ribamar.
É ao 2º duque de Lafões e 4º marquês de Arronches, D. João Carlos de Bragança Ligne Sousa Tavares Mascarenhas da Silva (6 de Março de 1719 a 10 de Novembro de 1806), verdadeiro homem do seu tempo, e irmão do anterior proprietário, que se devem as intervenções de cariz neoclássico efectuados no palácio, no último quartel do século XVIII, apontando-se a data de 1780 para o inicio destas obras, ainda que desconheçamos o autor do projecto.
O regresso dos nobres que haviam sido ostracizados pelo governo de Pombal e um certo progresso económico que se verifica durante o reinado de D. Maria I, levaram à remodelação de algumas velhas casas nobres, com vista ao seu engrandecimento arquitectónico, mais adequado à nova posição social e política dos seus proprietários. Passamos a ter uma arquitectura monumental de prestígio, que, através do simbolismo do edifício, pretende fazer passar um estatuto social também bem patente na preocupação da escolha dos materiais (especialmente na fachada), na existência de um jardim e na localização privilegiada. A esta função de exibir um status acrescem as já antigas preocupações com o recreio e o lazer, sustentados economicamente por extensas e férteis propriedades agrícolas.
D. João terá aproveitado este contexto para aplicar na sua Quinta de Alpriate um novo estilo arquitectónico -o neoclássico-, influenciado pelas novas tendências europeias, tendo para isso contribuído a sua permanência em países como a Inglaterra, a Áustria ou a França. Por outro lado, o carácter secundário desta residência permitia-lhe também ser mais arrojado nas linhas e nas experiências artísticas que ia desenvolvendo.
Estes novos ventos arquitectónicos, expressão material de uma vasta cultura adquirida pelo seu proprietário, apresentam-nos uma entrada nobre, com um templete em mármore suportado por quatro colunas toscanas, estriadas e assentes sobre pedestais. Citamos aqui a descrição que é feita por Paulo Rodrigues do templete do palácio:
Paralelas às colunas, existem quatro pilastras, adossadas à parede da entrada e a marcar os panos, onde foram abertos os vãos da porta central e de duas janelas laterais. As pilastras apresentam os mesmos motivos escultóricos das colunas. Repetem-se na marcação das esquinas dos corpos laterais da fachada principal, dando continuidade rítmica aos cunhais do segundo andar. O templete serve de terraço balaustrado a este segundo andar.
No interior do templete, a ladearem a entrada principal, foram abertos dois nichos, onde se colocaram duas estátuas femininas, de sabor clássico. A sua qualidade é bastante duvidosa, mas desconhecemos se copiam os originais. Os nichos são emoldurados por um friso, também em mármore, fechado em cima, por uma consola que prende um laço. De resto, todo o interior do templete é decorado com frisos esculpidos, representando elementos vegetais. Frisos que emoldurariam espaços de estuque pintado, de que agora só restam alguns vestígios. Nomeadamente, dos três medalhões de estuque que decorariam o tecto.
A sobreposição do templete evidencia-se na má relação arquitectónica que estabelece com o resto da construção. Coloca um problema de escala, o segundo andar é demasiado pequeno para este elemento, e um problema de volumes, os dois corpos laterais da fachada como que comprimem o templete entre si .
É assim constituída uma zona edificada, que se assume como um magnífico exemplo da arquitectura civil setecentista portuguesa. A área habitacional compreende uma residência de dois andares, uma capela e diversas instalações utilitárias.
Na capela localizada do interior do Palácio venerava-se a Nossa Senhora da Graça
A construção assenta numa planta rectangular, cujo perfil linear apenas é quebrado pelo ligeiro recuo do corpo central, onde se abre a entrada nobre da residência. A linearidade é confirmada pela repetição incessante dos elementos construtivos e decorativos, pelas quatro fachadas: a fiada de janelas de sacada do rés-do-chão, ritmadas duas a duas por portas que foram abertas ao centro dos dois corpos que ladeiam a fachada principal; a fiada de janelas do andar superior, com os seus lintéis salientes e curvos, os frisos, os cunhais, as molduras dos vãos ou a cornija que coroa a construção.
Destacam-se também os baixos-relevos que encimam e decoram algumas das janelas e das portas. O luxuoso jardim, hoje muito degradado, de perfil geométrico, à francesa, de buxo, tinha um labirinto, terraços e fontes, desenvolvendo-se, em degraus, nas traseiras do edifício. Era também nas traseiras, por cima da porta central, que se encontrava um brasão estilizado dos Duques de Lafões, mas que não correspondia ao brasão original dessa família.
Salientam-se as linhas simples e depuradas, janelas alongadas e uma varanda de balaustrada que imprimem a este edifício todo um gosto racional. De facto, o seu programa de arquitectura baseia-se em formas simples e elementares onde está sempre subjacente o princípio da funcionalidade.
Foram também proprietários da quinta Ana Maria de Bragança e Ligne Sousa Tavares Mascarenhas da Silva (1797-1851), 3ª Duquesa de Lafões e 5º Marquesa de Arronches; D. Caetano Segismundo de Bragança e Ligne Sousa Tavares Mascarenhas da Silva (1886-1927), 4º Duque de Lafões; D. Afonso de Bragança (1893-?), 5º Duque de Lafões. Esta quinta permaneceu na posse desta família até ao nosso século, havendo referências de um outro proprietário em 1936, o tenente-coronel Artur Lobo da Costa, Governador Civil de Lisboa. Nesta altura não era já o primitivo palácio tendo sido reconstruído depois dum incêndio que ali houve há cerca de 30 anos. Este incêndio terá destruído por completo o interior do edifício residencial, ficando apenas as fachadas. A reconstrução, que terá sido feita por José Luiz Pereira Crespo, ter-lhe-à furtado o esplendor do século XVIII, ainda que se tenha tentado manter a traça primitiva, o que nos permite dizer que grosso modo o palácio, que até há poucos anos ainda estava em boas condições de conservação, será, pelo menos exteriormente, semelhante ao edifício de 1780.
Posteriormente a Quinta foi vendida a uma Madame Mandany, casada com Queiroz Pereira, que arrendou a propriedade á Sociedade Agrícola da Quinta do Duque.
Em 1781, provavelmente impressionado pela sua beleza estética e arquitectónica e pela amizade com o Duque de Lafões, o Abade Correia da Serra considerou o palácio de Alpriate como o introdutor do neoclassicismo em Portugal, como um dos primeiros exemplos da antiga arquitectura greco-romana. No entanto, autores como João Vieira Caldas ou José Augusto França, consideram hoje este neoclássico como uma infiltração incipiente na arquitectura portuguesa, referindo a imposição de uma fachada neoclássica ou a inserção de elementos decorativos pontuais, numa estrutura que era tipicamente barroca. De facto também concordamos que, e também como defende Paulo Rodrigues, o neoclassicismo obrigaria a uma nova atitude e a uma nova concepção do espaço e da escala da arquitectura, quando o que acontece é apenas a inclusão de elementos de ornamentação numa estrutura preexistente. Existe assim na Quinta do Duque não um "neoclássico pleno", mas apenas uma inserção de conteúdos neoclássicos que vem enriquecer a arquitectura barroca do palácio que o 1º Duque de Lafões havia edificado.
Tudo isto não invalida que consideremos a Quinta do Duque como uma das mais grandiosas manifestações arquitectónicas do concelho devendo por isso ser salvaguardada e valorizada, tanto pelas características únicas que a diferenciam de outros imóveis, como pela sua integração na várzea de Alpriate, que ainda mantém traços da vida rural de outrora e de costumes próprios de uma tradição saloia.